sábado, 3 de outubro de 2009

Anticristo - Lars Von Trier

O que mais escuto a respeito de "Anticristo" de Lars Von Trier é a relação com a depressão que o diretor vivia durante o processo de criação do roteiro e de suas filmagens. Outra questão que pontuo é a série de argumentos que se fundem como desculpas para não se aprofundar em sua temática; "existe um leque de interpretações para esse filme", "Lars Von Trier era mais interessante quando não estava preocupado em se reinventar a todo o momento", "a violência presente no filme é desnecessária", entre outros que o acusam de canastrão e até mesmo, sendo um dos comentários mais irracionais e cegos, misógino. Além daqueles que somente reafirmam comentários feitos pelo próprio diretor de forma inocente.

Começo pontuando cada opinião dessas.

O processo de um filme somente está finalizado quando chega aos olhos do público. Seja qual for o filme, ele sempre vai deixar um leque de interpretações, já que esse "olhar" é quem vai finalizar o processo de comunicação. E essa interpretação estará sujeito a toda a bagagem e vivencia desse indivíduo de forma muito particular.

Uma das primeiras lições nas escolas brasileiras de cinema, é que não existem mais histórias a serem contadas e sim formas diferentes de serem contadas. Partindo deste raciocínio, o que há de tão errado nas tentativas de Lars? Existem muitos incômodos na forma em que ele estrutura seu filme e sua narrativa, mas talvez esse seja o seu lado inventivo, que o caracterize como um diretor autoral e livre das acusações do público – já que ele afirma fazer filmes para si mesmo. Mas eu discordo desse raciocínio. Na verdade também só estou contrariando quem critica suas tentativas de ser “inovador”.

Se o objetivo fosse resumir a temática do filme Anticristo em somente uma palavra, essa palavra seria "Castração". É esse o foco que o diretor busca explorar: o terror psicológico existente nas relações humanas devido aos costumes e práticas cotidianas da sociedade, não diretamente tratando da modernidade, e sim, referente aos reflexos históricos. O filme realça o horror vivido por mulheres inocentes, dando destaque para o século XVI, período de maior intensidade no movimento de caça as bruxas que se perpetuou por quase cinco séculos. Tudo o que acontece frente aos nossos olhos está mais do que justificado e objetivamente, nunca sendo moralista, nos coloca em uma posição de desconforto constante, já que é muito clara a possibilidade de inconscientemente passarmos a nos identificar com seus personagens.

E essa identificação não se constrói de forma pejorativa. A tentativa de Lars é explorar o que uma simples relação entre as pessoas, dentro do que a sociedade nos propõe e dentro daquilo que é dito aceitável, nos proporciona psicologicamente. O que perdemos da nossa natureza ao aceitar esses códigos de conduta e o que isso pode resultar, não talvez como no filme que acontece em uma realidade concreta, mas em um patamar interior; uma briga constante diante do contraste do desejo e do permitido.

No filme, a personagem principal, por ter perdido seu pequeno filho em um momento em que se entregava a seu prazer sexual, entra em uma profunda depressão. Esse é um dos maiores pontos do filme para construir essa lógica da culpa e do estar sendo castrado. Assim como a atitude do marido, psicólogo muito prepotente por ter assumido o tratamento de sua esposa, continuando a prender cada vez mais a mulher aos seus preceitos. São pequenas as atitudes contidas no decorrer das suas conversas. O descaso do marido com muitas coisas que a mulher tenta expressar. O tom de arrogância no qual ele sempre assume quando rebate os argumentos da mulher. A forma de expressar ser superior a qualquer outro raciocínio estabelecido, seja por ela ou pelo seu médico.

Em paralelo a esse caso, Von Trier dá indícios de que a natureza seria o anticristo do título. Representada pelo Éden ao qual eles viajam para fazer o tratamento da mulher e como sendo o lugar de origem de seus medos. É o retorno de Adão e Eva para o jardim do paraíso.

Ela, criada de uma costela dele, dá início ao subestimar histórico. Dá início aos argumentos para o controle e a castração da mulher. E é lá que a mulher do filme põe à tona a dor desse silêncio.

Mas o homem em sua representação, não está sendo acusado diretamente como o culpado por esse controle. O personagem de Willian Dafoe desconhece os verdadeiros motivos do ódio que sua mulher alimenta por ele. Quando ele busca racionalizar a situação e encontra a resposta como sendo ele o causador de todo esse ódio concentrado em sua mulher, a surpresa imediata é desse personagem, e não do público que já desenvolveu essa linha de raciocino.

Talvez aqui esteja implícito o processo terapêutico de Lars Von Trier. A psicologia em seu puro estado, mas não da forma que venha a reconfortar e sim apontar onde está esse anticristo do título. E é através dessa psicologia, que não tem nada de barata, que recebemos um dedo apontado em nossa cara dizendo o quanto é falida a lógica da nossa sociedade e principalmente nossos princípios morais.

E daí parte a minha pergunta. Onde está a visão misógina nessa história toda? Onde está a violência não justificada?

Talvez todos esses equívocos estejam principalmente na cabeça dos ditos críticos que não conseguem enxergar um palmo a frente do seu nariz, e temem o fato de, talvez sim, Lars Von Trier ser o melhor diretor do mundo.

sábado, 4 de julho de 2009

Eden Log - Franck Vestiel

O Primeiro Festival de Cinema Fantástico de São Paulo premiou “Eden Log” como melhor filme na categoria Internacional. Embora não concorde com a escolha do júri, o filme não somente se cumpre como sendo de categoria fantástica, termo que repetirei bastante ao longo do texto, mas também como uma ficção científica perfeitamente executada e que se destaca pelo seu baixo custo. Os outros concorrentes possuíam suas particularidades, seja no excesso de sangue, seja na comédia, ridicularização, mas eram bons filmes e cumpriam muito bem suas propostas.

O destaque era “Deixe Ela Entrar”, que, na minha opinião, é muito superior aos outros filmes apresentados, tanto na categoria Internacional quanto na Ibero Americana, mesmo não sabendo como criar parâmetros para compará-los. Apenas prefiro.

“Eden Log” começa com uma sequência muito interessante. Um homem se levanta em meio a um lodo. Não conseguimos inicialmente definir o que está acontecendo. São cortes freqüentes que nos colocam na posição do personagem que somente vê devido a uma luz branca cintilante que o guia e nos apresenta fragmentos do que é aquele lugar. O corte segue essa lógica. O som é sua respiração ofegante.

Ele está em uma caverna e, aos poucos, passa a controlar aquela fonte de luz, seguindo em diante, passando a remeter ao clima claustrofóbico do filme “Cubo”, a lógica narrativa dos jogos RPG´s, e os obstáculos como sendo nada mais do que mutações genéticas (nesse caso não precisamente genéticas) semelhantes a Resident Evil e Silent Hill.

E isso funciona, já que em nenhum momento foge de seu objetivo filosófico para se cumprir como um filme de gênero, fator comum em quase todas as produções exibidas no festival.

“O Proprietário”, de Javier Diment e Luis Ziembrowski, filme que competia na categoria Ibero Americana, é um exemplo claríssimo do quanto um diretor pode não ter controle do que está fazendo – ou de que talvez até tenha.

Detentor de uma trama psicológica incrível, onde, aos poucos, passávamos a estar no ponto de vista de um observador sinistro, mudo e com olhares introspectivos, acaba por somente se cumprir como mais um filme trash barato ao não se assumir como um suspense.

Medo? Acredito que não. Inexperiência? Talvez, mas acredito que exista uma áurea que está em meio a produtores do gênero que agem de forma a apenas se auto-afirmarem. Custe o que custar. É o preço a se pagar ao defender um cinema não tão difundido, e que necessita cada vez mais de apoios como o I SP TERROR.
Voltando à tentativa de digerir a vitória de “Eden Log”, declaro que a forma que encarava a fita em seu desenrolar não era a mais propicia, justamente pelo ritmo que vinha dos outros filmes do evento. Mas isso me levou a pesquisar e tentar encontrar referências ou ser mais direto e explorar o passado do diretor Franck Vestiel.

Foi um processo complicado. Diretor estreante. Referências quase zero. Um filme francês de baixo orçamento que, embora tenha estado presente em alguns festivais, teve repercussão muito pequena, o que dificulta encontrar outros textos ou materiais conectados ao filme.

A solução foi assistir pela segunda vez e finalmente começar a juntar algumas peças. O que antes parecia um quebra-cabeça, logo fez muito sentido. É um filme sobre um futuro indefinido, mas muito bem embasado no que representa e no que poderá vir a ser o preço a se pagar pelos interesses mercadológicos e as lógicas sustentáveis vigentes da sociedade moderna.

Devido à febre “verde” em que o mundo vive, criei certo preconceito aos primeiros desenrolares da trama de Eden Log, já que muitas vezes os filmes que abordam essa temática acabam por se tornarem pragmáticos e se perdem em discursos moralistas superficiais. Nada disso.
O filme ainda respeita seus limites. Sabe o ponto exato de se utilizar um personagem que não enxerga o todo no qual está envolvido. Sabe que não tem como função “trazer mensagens” ao público e, principalmente, que não é interessante tornar-se panfletário.

É um filme que se cumpre filosoficamente, uma oportunidade de singela reflexão. Um elenco pequeno que predomina quase todas as cenas, tomadas de câmera na mão com uma decupagem respeitosa, digna de grandes filmes de ação. E o mais importante, extremamente funcional.

Para aqueles que não conferiram Eden Log na I Mostra de Cinema Fantástico de São Paulo, provavelmente não terão uma oportunidade tão próxima. O Filme não tem data de estréia prevista e, provavelmente, caso venha a ser lançado no Brasil, estará sendo diretamente enviado para as locadoras.

É um ótimo filme, embora eu ainda acredite piamente que “Deixe Ela Entrar” é muito superior, seja lá em quais quesitos forem.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Deixe Ela Entrar - Tomas Alfredson

Nada me faz acreditar hoje que existam filmes classificados como “terror” que mostrem sua competência, com raríssimas, quase nulas, exceções. Em São Paulo teve inicio nesta quinta-feira (25/06/09) o primeiro Festival Internacional de Cinema Fantástico, e o tão falado “Deixe Ela Entrar”, de Tomas Alfredson, que somente fora exibido na Mostra de Cinema de São Paulo no ano passado, voltou para esta semana especial.

O filme é sobre o jovem Oskar que vive em Estocolmo. Na escola, está sempre sendo agredido por outros alunos; em sua casa, vive distante do pai e sempre ao lado da mãe, que ora se demonstra carinhosa, ora está com os nervos à flor da pele. Não por acaso.

Começou a ocorrer uma série de estranhos assassinatos onde as pessoas são encontradas degoladas e com seu sangue extraído. Ao mesmo tempo, Oskar encontra Eli, uma estranha jovem que aparenta também ter seus 12 anos de idade e vive no apartamento ao lado. É desse encontro que temos o ponto de partida para o que há de mais interessante no filme.

Estamos frente a um filme de gênero que, mesmo tratando-se de produção em larga escala, atuando geralmente como caça-níqueis, inova ao explorar a delicadeza da relação entre Oskar e Eli, não pelos maneirismos, mas devido à particularidade que nos remete muito àquela cidade fria que parece fazer parte do ritmo de vida das pessoas.

Explorando o tripé amizade-paixão-necessidade, no contraste entre uma fotografia limpa e branca, e o silêncio, temos um filme superior. Não em relação somente a outros do gênero, mas dentro de si mesmo. Seu desenvolvimento nos leva a uma resolução que pode ser vista como banal, mas, ao meu ver, enriquece o filme, pois se tentasse mostrar outro lado da moeda, aí sim cairíamos em velhos contos milhões de vezes exibidos em salas de cinema.

O filme não foi lançado oficialmente no país e não existe data prevista para que isso aconteça. A sua única oportunidade é aproveitar a ultima exibição no Festival Internacional de Cinema Fantástico ou por métodos alternativos, visto por muitos como suspeito. Escolha a sua forma de conferir este filme e veja sem culpa. Simplesmente veja.
Para quem quiser ler mais sobre o filme: http://erickmartorelli.wordpress.com/

domingo, 14 de junho de 2009

O Exterminador do Futuro: A Salvação - McG

Em 1984, James Cameron deu início ao que futuramente se tornaria a franquia “O Exterminador do Futuro”. Em 1991, construiu uma sequência que, além de muito superior ao filme original, continha uma trama redonda e efeitos especiais que revolucionavam a indústria cinematográfica de Hollywood. Ainda, contávamos com Arnold Schwarzenegger dando vida ao andróide T-800, que no primeiro filme tinha como missão matar Sarah Connor (Linda Hamilton), e na sequência, devido a manobras políticas para não prejudicar sua imagem como candidato ao governo californiano, volta como “o herói”, o que acabou, porém, enriquecendo o filme, já que forçou a criação de um modelo mais avançado, o T-1000 (Robert Patrick), que traria um show aos olhos.

Na internet, hoje, é possível assistir ao final alternativo do segundo filme, e o último dirigido por James Cameron. Nele, Sarah e seu filho John Connor, ambos bem mais velhos, estão em um parque de diversões com a suposta filha de John e neta de Sarah. Na narração de Sarah, ela afirma que o Dia do Julgamento realmente tinha sido evitado. Soa piegas, e talvez Cameron tenha acertado em utilizar o final que utilizou, trabalhando os medos e as incertezas do futuro, mesmo diante de uma singela crítica que nos compara – nós humanos – à frieza das máquinas.

Mas uma coisa seria certa: o final alternativo daria um basta na história e evitaria as outras duas continuações. Em “O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas” os produtores tentaram desesperadamente criar um novo universo para dar continuidade ao que teoricamente havia se encerrado – “O dia do julgamento não pode ser evitado, somente adiado?”, “A Skynet investiu em uma exterminadora na tentativa de atrair os homens da resistência ou o público babão?”, “O que é o T-800 se auto-exterminando, sendo que eles não podem se auto-exterminar?”, entre outras asneiras que somente competem à criação de mais um filme de ação e ignoram a áurea do equilíbrio entre uma história bem contada e muita ação.

A nova sequência, “O Exterminador do Futuro: A Salvação”, mesmo com a confirmação da não-presença do astro principal, carregava o fardo de superar o fracasso do filme anterior. Christian Bale assume o papel de John Connor, desbancando Nick Stahl, que jamais conseguiu se encontrar em alguma produção e carregar um personagem convincente. Mas essa substituição acabou criando um ar de “promessas”. As primeiras imagens do filme surgiram na internet e aparentemente teríamos um novo suspense se formando para nos convencer das baboseiras ditas no anterior.

Engano. O que nos trailers parecia ser misterioso, já nos primeiros trinta minutos é possível deduzir pelos diálogos previsíveis. Sem contar o desespero de se criar links com os filmes anteriores. Frases que marcaram a série como “Eu vou voltar”, “Venha comigo se quiser viver”, a ação moral de não matar um ser humano e sim atirar em suas pernas e mantê-lo vivo, e até mesmo a cena em que, ao receber um soco, a pessoa vira lentamente seu rosto para encarar o inimigo.

É nessa sucessão de equívocos que este filme consegue superar a terceira peça. O que não era nenhuma tarefa difícil, mas que se torna infantil e somente convence quem estiver predisposto a ver uma chuva de cenas de ação muito inferiores às que já tínhamos visto no primeiro e no segundo, e não estiver preocupado com a história que é contada.

O Exterminador do Futuro deixou de ser um filme para fãs. Não há mais preocupação em construir um vilão psicologicamente aterrorizador por sua indestrutibilidade, ou investir em um roteiro que assuma de vez um final para a saga. Os produtores notaram a força que o nome desse filme possui diante do público e, ao mesmo tempo, a passividade que se generaliza com a idéia de cinema "entretenimento" que circunda o público.

A genialidade estava presente em uma história que se construía com as necessidades das cenas de ações e, consequentemente, o uso de efeitos especiais e visuais, não como hoje, que a história se constrói somente para justificar o uso dos CGI´s (Computer-Generated Imagery). Mas aqui estamos, aguardando a quinta versão da série, já que engolimos qualquer coisa hoje em dia, até mesmo uma versão de Arnold Schwarzenegger que eu me recuso a comentar.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Zeitgeist - Peter Joseph

A Espiritualidade é um termo específico que na verdade significa: lidar com a intuição. Na tradição teísta há a noção de apego a um conceito. Certo ato é considerado como não aceitável para um princípio divino. Certo ato é considerado aceitável para o divino, qualquer coisa.

Na tradição do não-teísmo, no entanto, é bastante direto – que os casos da história não são particularmente importantes. O que é realmente importante é Aqui e Agora. O agora é definitivamente agora. Nós tentamos viver o que está disponível ali, no momento.

Não faz sentido pensar que existe um passado que poderíamos ter agora. Isto é agora. Este preciso momento. Nada místico, apenas “agora”, muito simples, direto. E desse “agora”, contudo, emerge sempre um sentido de inteligência de que estamos constantemente em interação com a realidade um por um.
Lugar por lugar.
Constantemente.

Nós na realidade vivemos uma fantástica precisão, constantemente. Mas nós nos sentimos ameaçados pelo “agora” e saltamos para o passado ou futuro. Prestando atenção aos bens materiais que existem na nossa vida – esta vida rica que nós levamos. Todas estas escolhas tomam lugar a todo o momento, mas nenhuma delas é considerada boa ou má. Todas as coisas que vivemos são experiências incondicionais. Elas não vêm com uma etiqueta dizendo “isto é considerado mal” ou “isto é bom”.

Mas nós as vivemos e não tomamos a devida atenção a elas.
Nós não damos conta que estamos indo para algum lugar.
Consideramos isso um incômodo.

Esperar pela morte.


Isso é um problema.
É o não confiar propriamente no “agora”; que aquilo que vivemos agora possui muitas coisas poderosas.
É tão poderoso que somos incapazes de enfrentá-lo. Conseqüentemente, temos que emprestar todo o passado e convidar o futuro a todo o momento.

E talvez seja por isso que procuramos a religião.
Talvez seja por isso que andamos na rua.
Talvez seja por isso que nos queixamos da sociedade.
Talvez seja por isso que votamos nos presidentes.

É bastante irônico.
Muito engraçado mesmo.


Texto de “Chögyam Trungpa Rinpoche” que abre o filme Zeitgeist.

O filme está disponível no site oficial.
Para assistir em português, clique aqui.

domingo, 19 de abril de 2009

Sinédoque, Nova Iorque - Charlie Kaufman

Como identificar o limite existente entre a realidade e os simulacros? Como um homem pode ignorar a dor da complexidade do entendimento de sua existência? Como viver buscando entender o mundo e que o mundo nos entenda? Nossas angústias, medos, desejos, neuroses. Os caminhos que trilhamos e a incerteza de que esse seja o exato para nos encontrarmos. O homem nasce em uma não compreensão e o ápice do seu intelectual é a morte diante das dúvidas. Das incertezas.

Crescemos diante da ilusão de esmeros. A boa convivência familiar, a amizade, os filhos, o sucesso profissional e, principalmente, o desejo de nos encontrarmos em tudo isso. Muitas vezes esse “desejo de encontrar a si mesmo” não acontece de forma racional, perdendo-se em depressões, insatisfações crônicas, e é quase isso que pode, infelizmente empobrecendo sua magnitude, “explicar” o personagem de Philip Seymour Hoffman (magnífico). Mas às vezes, trazer essas questões para o âmbito racional é muito mais doloroso, também resultando nessa autodestruição.

A arte muitas vezes torna-se a fuga, refletindo esses medos. Charlie Kaufman, ao lado de Michel Gondry, explorou em seu roteiro de “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” a insatisfação do homem diante do novo, e em “A Natureza Quase Humana”, fazendo um paralelo ao caso de Kasper Hauser, construiu o contraste e as equivalências entre os desejos do homem em seu estado selvagem e do homem dito “moderno”, e o que o exalta é justamente o visceral dessas questões equilibrado entre a comédia e o drama.

Nisso tudo, o que mais surpreende é a forma com que trabalha seus personagens diante de situações absurdas, em um mundo extremamente particular – revelando uma assinatura autêntica, que antes parecia uma leitura de Michel Gondry ou Spike Jonze sobre seu roteiro, mas em “Sinédoque, Nova Iorque”, prova não ser somente isso.

Caden Cotard é um diretor de teatro que passa por uma crise em seu casamento. Após exibir sua mais nova peça, sua esposa e sua filha mudam-se para a Alemanha. Ao mesmo tempo recebe a informação de que ganhou um prêmio, uma espécie de incentivo, para construir sua mais nova peça. É aqui que aparece a primeira referência a sinédoque do título.

É um personagem muito submisso, que é simplesmente levado ao fluxo dos acontecimentos (Queria saber qual a proximidade entre ele e seu criador). Ao longo do filme, parece acumular a dor dessa submissão, sempre em um processo de reflexão interior, sem nunca compartilhar essa dor com ninguém. Mesmo quando está junto a sua filha, em um momento em que poderia explicar tudo o que aconteceu décadas antes, não o faz, acaba abaixando sua cabeça, repetindo as falsas afirmações feitas por ela.

Durante esse processo de esclarecimento, começa a construir a sua peça megalomaníaca, cuja proposta é reproduzir suas dores, suas angústias e seu silêncio. Tudo passa a ser o simulacro que anestesia o que existe como seu drama pessoal. No cinema autoral existe essa tendência de explorar com minúcia pequenos dramas, e me parece que é um pouco sobre essa exaltação que Kaufman mergulha, justamente por ser um autor desta categoria em uma indústria que não abre muito espaço para isso. Não somente no cinema, no teatro, ou qualquer outro meio de expressão. Kaufman está afirmando a “existência da complexidade” e a “complexidade da existência” do indivíduo que jamais será possibilitado de compartilhar sua amargura. A questão de um observador ter a particularidade de seu repertório revela que somente ele pode criar aquela sua realidade. Aquela sensação que ao longo da vida tentamos exprimir a todo o custo, que evita o sofrimento de uma solidão, ou que pelo menos venha a amortecer isso.

“Sinédoque, Nova Iorque” é um filme que se torna magnífico por deixar todo esse paralelo existente entre a realidade e aquilo que reproduzimos sobre ela. Sobre a própria função lingüística da sinédoque. É também um questionamento a importância de tudo isso diante de uma verdade muito maior que permeia está existência. Este fato do ser, permanecer. Woody Allen, em “Desconstruindo Harry”, afirma: A tradição é a ilusão da permanência. Talvez um pouco descabida seja esta afirmação neste contexto, mas que no fundo acaba por dizer muito sobre a construção de um paralelo a isto que somos, e o quanto alimentamos, sem estarmos verdadeiramente intrigados com estas questões, a ponto de esquecermos o que tudo isso envolve.

Um filme sobre a certeza e a dúvida. Sobre a vida. Coerente e equivocado. Mentiras e verdades. O filme sobre a dualidade de tudo. Sobre o ser e estar e o seu transcender. Um filme sobre o homem.

terça-feira, 14 de abril de 2009

XXY - Lúcia Puenzo

Os eventos de XXy seguem um ritmo típico de filmes que buscam explorar profundamente a natureza dos problemas íntimos que abrangem um indivíduo. Isso se dá pela vagarosidade com que alguns detalhes são ricamente valorizados, e que quase passam despercebidos: a profissão do pai, que detém certo conhecimento sobre o assunto, se vê incapaz, por motivos óbvios, de poder fazer algo quanto ao problema de sua filha; a ansiedade, a dúvida, o desejo que aparecem na brutalidade com que Alex (Inés Efron) lida com sua realidade; a sua imagem na primeira cena trazendo a referência a um predador, que nos remete a sua força, a suas questões; a própria ambigüidade do seu nome.

O título já nos situa por onde trilharemos na vida de Alex, mas isso acontece sutilmente na fita. Vivida por uma atriz, além de linda, expressiva, passamos a esperar a sutileza de uma jovem de quinze anos, mas que já se parece com uma mulher e que contrasta com sua inocência. Entramos no mundo de Alex. Na sua realidade, sua insegurança, seus medos, em sua dualidade.

Este é o primeiro filme da diretora Lúcia Puenzo, e que lhe rendeu o Prêmio da Crítica no “Festival de Cannes” e o de Melhor Filme no “Festival de Bangkok” no ano de 2007, e que já nos mostra muito da sua precisão e do que virá a se aperfeiçoar futuramente. O filme perde sua força em alguns momentos, principalmente na questão da sutileza que as primeiras cenas prezaram, passa a existir um didatismo para expressar o drama da família, mas que possui seu mérito por um uso consciente da música que o acompanha. Quando estamos diante de momentos que reluz vida, é pertinente somente pela competência de uma escolha racional dos planos e o desempenho de seus atores. A música é o silêncio de cada personagem, seus olhares. Quando surge, é em momentos claramente desprovidos da tentativa de apelo emocional, e são raros diretores que tendem a valorizar essa questão.

Há um diálogo muito próximo com o filme “Meninos Não Choram” de Kimberly Peirce. A realidade das duas personagens, Alex e Teena (Hillary Swank), não são as mesmas, mas a questão de suas sexualidades está em jogo e claramente situada na exposição diante da sociedade e aceitação, e nas alternativas existentes quanto à própria aceitação. Além disso, uma breve referência a Paranoid Park na cena em que Alex caminha na praia com uma blusa preta sobre a cabeça, além do seu próprio nome que remete ao personagem central do filme de Gus Van Sant.

Quanto à exploração desse mundo, cria-se uma expectativa na apresentação dos personagens, e quando Alex conhece Álvaro, não acreditamos na concretização da atração de ambos ou não somos ousados o suficiente para isso. Em uma cena seguinte remete a isso, a consciência da música vem à tona explicitamente: uma música romântica, que até então achamos fazer parte da trilha sonora do filme, toca na rádio e Alex o desliga, como se a sua agressividade ou a dificuldade da existência daquele momento não estivesse de acordo com aquele clima que vinha sendo construído.

Resumidamente, XXy é um filme que tem como característica a velocidade do desenvolvimento das situações. Valorizando isso, permite que sintamos a agonia e a jornada de cada personagem ali presente, que são construídos com seus objetivos perfeitamente amarrados uns aos outros. Algumas coisas faltam, mas nada sobra.