O que mais escuto a respeito de "Anticristo" de Lars Von Trier é a relação com a depressão que o diretor vivia durante o processo de criação do roteiro e de suas filmagens. Outra questão que pontuo é a série de argumentos que se fundem como desculpas para não se aprofundar em sua temática; "existe um leque de interpretações para esse filme", "Lars Von Trier era mais interessante quando não estava preocupado em se reinventar a todo o momento", "a violência presente no filme é desnecessária", entre outros que o acusam de canastrão e até mesmo, sendo um dos comentários mais irracionais e cegos, misógino. Além daqueles que somente reafirmam comentários feitos pelo próprio diretor de forma inocente.Começo pontuando cada opinião dessas.
O processo de um filme somente está finalizado quando chega aos olhos do público. Seja qual for o filme, ele sempre vai deixar um leque de interpretações, já que esse "olhar" é quem vai finalizar o processo de comunicação. E essa interpretação estará sujeito a toda a bagagem e vivencia desse indivíduo de forma muito particular.
Uma das primeiras lições nas escolas brasileiras de cinema, é que não existem mais histórias a serem contadas e sim formas diferentes de serem contadas. Partindo deste raciocínio, o que há de tão errado nas tentativas de Lars? Existem muitos incômodos na forma em que ele estrutura seu filme e sua narrativa, mas talvez esse seja o seu lado inventivo, que o caracterize como um diretor autoral e livre das acusações do público – já que ele afirma fazer filmes para si mesmo. Mas eu discordo desse raciocínio. Na verdade também só estou contrariando quem critica suas tentativas de ser “inovador”.
Se o objetivo fosse resumir a temática do filme Anticristo em somente uma palavra, essa palavra seria "Castração". É esse o foco que o diretor busca explorar: o terror psicológico existente nas relações humanas devido aos costumes e práticas cotidianas da sociedade, não diretamente tratando da modernidade, e sim, referente aos reflexos históricos. O filme realça o horror vivido por mulheres inocentes, dando destaque para o século XVI, período de maior intensidade no movimento de caça as bruxas que se perpetuou por quase cinco séculos. Tudo o que acontece frente aos nossos olhos está mais do que justificado e objetivamente, nunca sendo moralista, nos coloca em uma posição de desconforto constante, já que é muito clara a possibilidade de inconscientemente passarmos a nos identificar com seus personagens.
E essa identificação não se constrói de forma pejorativa. A tentativa de Lars é explorar o que uma simples relação entre as pessoas, dentro do que a sociedade nos propõe e dentro daquilo que é dito aceitável, nos proporciona psicologicamente. O que perdemos da nossa natureza ao aceitar esses códigos de conduta e o que isso pode resultar, não talvez como no filme que acontece em uma realidade concreta, mas em um patamar interior; uma briga constante diante do contraste do desejo e do permitido.
No filme, a personagem principal, por ter perdido seu pequeno filho em um momento em que se entregava a seu prazer sexual, entra em uma profunda depressão. Esse é um dos maiores pontos do filme para construir essa lógica da culpa e do estar sendo castrado. Assim como a atitude do marido, psicólogo muito prepotente por ter assumido o tratamento de sua esposa, continuando a prender cada vez mais a mulher aos seus preceitos. São pequenas as atitudes contidas no decorrer das suas conversas. O descaso do marido com muitas coisas que a mulher tenta expressar. O tom de arrogância no qual ele sempre assume quando rebate os argumentos da mulher. A forma de expressar ser superior a qualquer outro raciocínio estabelecido, seja por ela ou pelo seu médico.
Em paralelo a esse caso, Von Trier dá indícios de que a natureza seria o anticristo do título. Representada pelo Éden ao qual eles viajam para fazer o tratamento da mulher e como sendo o lugar de origem de seus medos. É o retorno de Adão e Eva para o jardim do paraíso.
Ela, criada de uma costela dele, dá início ao subestimar histórico. Dá início aos argumentos para o controle e a castração da mulher. E é lá que a mulher do filme põe à tona a dor desse silêncio.
Mas o homem em sua representação, não está sendo acusado diretamente como o culpado por esse controle. O personagem de Willian Dafoe desconhece os verdadeiros motivos do ódio que sua mulher alimenta por ele. Quando ele busca racionalizar a situação e encontra a resposta como sendo ele o causador de todo esse ódio concentrado em sua mulher, a surpresa imediata é desse personagem, e não do público que já desenvolveu essa linha de raciocino.
Talvez aqui esteja implícito o processo terapêutico de Lars Von Trier. A psicologia em seu puro estado, mas não da forma que venha a reconfortar e sim apontar onde está esse anticristo do título. E é através dessa psicologia, que não tem nada de barata, que recebemos um dedo apontado em nossa cara dizendo o quanto é falida a lógica da nossa sociedade e principalmente nossos princípios morais.
E daí parte a minha pergunta. Onde está a visão misógina nessa história toda? Onde está a violência não justificada?
Talvez todos esses equívocos estejam principalmente na cabeça dos ditos críticos que não conseguem enxergar um palmo a frente do seu nariz, e temem o fato de, talvez sim, Lars Von Trier ser o melhor diretor do mundo.






